TENHO SEDE
Quanto
gostaria de poder dizer
De poder
gritar
Clamar
E inclusive
bradar aos céus
Tocar à
porta dos deuses em cólera
Inacessíveis
como um mendigo
- Tenho
sede!...
Tenho sede
Sede de som
De luz
De calor
De vida
E de ar puro
Para as
minhas veias entumecidas
Tenho sede
dos dias verticais da canícula
Tenho sede
Tenho sede
do caminho que se interrompeu
Tenho sede
das palavras
Que ninguém
mais quis pronunciar
Tenho sede
enfim
Do enunciado
dos meus primeiros passos
Tenho sede
Tenho sede
de gotas
Que caiam
como petardos sobre o lodaçal
Amachucando
a aleivosia indolente da tarde
Tenho sede
dos dias contados um a um
Pela crença
imaculada dos dedos de uma criança
Na fé viva
de ver despontar o seu amanhã
Entretanto o
suor
Mirrando
gota a gota
Secou
finalmente desnutrido
Queimado na
febre oblíqua da minha pele
Quando o
caminho não foi já até ao fim
E as
palavras prostraram-se como árvores
Desfolhadas
E
adormecidas sobre a frigidez cinzenta da
Gravana
Desperta
mulher
De pés
descalços e seios viris de montanha
Escarpa nos
vastos campos do Sahel
Regada e
viçosa no caminho longo do Nilo
Profética no
tumultuoso Cabo da esperança
Ou
eternamente encanecida
No cimo
indómito do Quilimanjaro
Por incrível
que pareça
Fui
denunciado na minha sede
E por isso
mulher
Não me
cansarei de dizer
Gritar e
bradar aos céus
Que se oiça
para além das estrelas
- TENHO
SEDE.
Armindo Vaz D’Almeida
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