sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

TEXTOS, POEMAS, EXCERTOS

TENHO SEDE

Quanto gostaria de poder dizer
De poder gritar
Clamar
E inclusive bradar aos céus
Tocar à porta dos deuses em cólera
Inacessíveis como um mendigo
- Tenho sede!...

Tenho sede
Sede de som
De luz
De calor
De vida
E de ar puro
Para as minhas veias entumecidas

Tenho sede dos dias verticais da canícula
Tenho sede
Tenho sede do caminho que se interrompeu
Tenho sede das palavras
Que ninguém mais quis pronunciar
Tenho sede enfim
Do enunciado dos meus primeiros passos

Tenho sede
Tenho sede de gotas
Que caiam como petardos sobre o lodaçal
Amachucando a aleivosia indolente da tarde
Tenho sede dos dias contados um a um
Pela crença imaculada dos dedos de uma criança
Na fé viva de ver despontar o seu amanhã

Entretanto o suor
Mirrando gota a gota
Secou finalmente desnutrido
Queimado na febre oblíqua da minha pele
Quando o caminho não foi já até ao fim
E as palavras prostraram-se como árvores
Desfolhadas
E adormecidas sobre a frigidez cinzenta da
Gravana

Desperta mulher
De pés descalços e seios viris de montanha
Escarpa nos vastos campos do Sahel
Regada e viçosa no caminho longo do Nilo
Profética no tumultuoso Cabo da esperança
Ou eternamente encanecida
No cimo indómito do Quilimanjaro

Por incrível que pareça
Fui denunciado na minha sede
E por isso mulher
Não me cansarei de dizer
Gritar e bradar aos céus
Que se oiça para além das estrelas
- TENHO SEDE.

Armindo Vaz D’Almeida

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