Ressurreição
Porque a forma das coisas
lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve
sono.
Mais nenhuma ilusão
apetecia,
Mais nenhum coração era
seu dono.
Cada fruto maduro
apodrecia;
Cada ninho morria de
abandono;
Nada lutava e nada
resistia,
Porque na cor de tudo
havia outono.
Só a razão da vida via
mais:
Terra, sementes, caules,
animais
Descansavam apenas um
momento.
E o vencido poeta
despertou
Vivo como a certeza dum
rebento
Na seiva do poema que
sonhou.
Miguel Torga